dezembro 10, 2004

Democratização da Cultura

Uma curta passagem apenas para vos deixar este pequeno texto para reflexão:
«Democratizar a cultura é uma necessidade, mas é também uma expressão perigosa se for interpretada como uma simplificação das ideias e das formas que as banalize para as tornar acessíveis a todo a gente. Isso não será democratizar a cultura, mas sim corrompê-la e substituí-la por algo que é uma sua caricatura, um seu reflexo ridículo. A democratização da cultura só pode ser entendida como a criação de condições que facilitem e promovam o acesso aos bens culturais de quem está disposto a fazer o esforço intelectual indispensável para desfrutar, aprender e enriquecer a sua própria vida graças a esses mesmos bens. Ela também significa, além disso, a garantia de que ninguém, sejam quais forem a sua origem ou condição social, será impedido de exercer esse direito.»
Mário Vargas Llosa, «A cultura e a nova ordem internacional», in Globalização, Ciência, Cultura e Religiões, ed. da Fundação Calouste Gulbenkien.
ET

10 comentários:

O Micróbio disse...

Não sei o que seria mais perigoso: a Democratização da cultura ou uma democracia cultural? A confusão quase aparente destas duas formas prende-se com duas visões diferentes do mundo, ligadas a dois conceitos que se completam. A dinâmica cultural responde a um conceito patrimonialista de cultura. Para esta visão do mundo a cultura é considerada como algo que está estabelecido e que, por isso, se tem que levar às populações, numa razão de superioridade. Democratizar a cultura é algo parecido com o “elevar o nível cultural das massas”, como se as massas não tivessem ou não exercessem práticas culturais, como se não existissem várias formas culturais grupais, locais, regionais, etc..

Anónimo disse...

Depois disto, só falta dizer... que vai ficar tudo na mesma. Os intelectuais não prescindem do seu património.

Tribunal_Beatas disse...

Acredito que ainda estejamos muito longe da democratização da cultura em Portugal, tal como ela é descrita por Mário Vargas Llosa. É muito difícil haver quem tenha fácil acesso a ela por uma simples razão: é cara. Pode haver desejo e disponibilidade (monetária e temporal) de ir ver uma boa peça de teatro, um bom filme, ler um livro ou visitar um museu, mas essa disponibilidade nem sempre existe. Eu adorava fazer todas essas coisas com mais frequência, mas é-me impossível gastar 20 euros de cada vez que queira ir ao teatro, por exemplo. Ora aí está uma boa medida que o Governo podia tomar: tornar os acessos à cultura mais baratos. De certeza que deixaríamos de ser este povo "agarrado" às televisões que somos.

Anónimo disse...

Pois... e o mundo era um local perfeito.
A nossa "elite" intelectual lá no fundo continua a achar que a cultura não é para o "povinho".
Quanto mais sabes mais queres saber e aí a coisa complica para aqueles que fazem parecer que sabem tudo acerca de tudo.
Para terminar entendo que a democratização da cultura passa essencialmente pela mudança de mentalidades.
David

Anónimo disse...

Cito "A democratização da cultura só pode ser entendida como a criação de condições que facilitem e promovam o acesso aos bens culturais" é o significado da cultura democrática.Não nos podemos esquecer que ao longo dos tempos a cultura sofreu ddiversas interpretações conforme o lugar, o tempo e o governo vingente.No tempo dos Romanos ou Gregos tinhamos uma forma de cultura diferente.Nos tempos mais actuais o Bloco Soviético ou mesmo Portugal encaravam a cultura de modo diferente daquilo que achamos hoje.
Ag

Anónimo disse...

Para Micróbio: todas essas observações são extremamente pertinentes e fazem-nos pensar. O importante não é “democratizar a cultura”, enquanto aculturação forçada que nivela tudo segundo um padrão supostamente de qualidade superior... trata-se sim, de democratizar o acesso aos bens culturais, e possibilitar que cada um de nós possa aceder a eles e não apenas uma determinada elite endinheirada. Não se trata aqui de definir o conceito de cultura enquanto identidade de um povo, noção muito mais vasta que abrange todas as formas e expressões figurativas ou simbólicas dos usos e costumes de uma comunidade, e onde não podemos fazer distinções valorativas de importância hierárquica. Por isso se deve confundir aquela intenção (de criar condições para que todos tenhamos hipótese de usufruir, se assim o desejarmos, de bens culturais diversos – exposições, espectáculos musicais, teatro, bailado, cinema, etc.) ao depreciativo “elevar o nível cultural das massas”... ET

Anónimo disse...

Para Zé: que eu saiba ninguém gosta de prescindir daquilo que é seu. Seja intelectual ou não. Talvez partilhar seja a palavra que alguns têm que aprender. ET

Anónimo disse...

Para Beatas: têm toda a razão. A ideia de Vargas Llosa pode estar longe de se concretizar, é verdade, mas não deixa de ser um objectivo pelo qual devemos lutar. Na minha opinião, democratizar o acesso à cultura passa por disponibilizar parte desses bens de modo gratuito para que os mais desfavorecidos (economicamente falando) não fiquem privados de os usufruir... que a falta de dinheiro não seja impedimento para aqueles que se mostram interessados e disponíveis. ET

Anónimo disse...

Para David: «democratização da cultura passa essencialmente pela mudança de mentalidades». Concordo 100%. ET

Anónimo disse...

Para Agostinho: tudo na vida evolui. E as várias interpretações da cultura sedimentam uma certeza – que o conhecimento não é só para alguns. ET