dezembro 05, 2004

Uma ideia de Cultura

Nesta minha primeira participação, quero partilhar convosco a minha ideia de Cultura e, se possível, gostaria de saber a vossa opinião sobre o assunto. Deixo-vos, então, para reflectir, este pequeno texto:
Tenho da Cultura, talvez, uma ideia demasiado utópica: espaço social onde o grau de formalismo se esbate nas práticas quotidianas solidárias; campo fértil de memórias e afectos onde todas as expressões artísticas têm a mesma dignidade. Por isso, para mim, a oferta e a fruição das actividades culturais são, sobretudo, formas de participação cívica.
Nesta óptica, encaro a Cultura como um instrumento legítimo de Poder que, quando efectivamente partilhado entre os diferentes agentes (instituições, autores e público), de forma integrada, permite transformar a realidade através da compreensão dos valores da sociedade (passados, presentes e futuros).
Recuso-me a considerar a Cultura como um mero produto comercial, onde o lucro é mais importante do que o conteúdo e não aceito que se avalie a produção de quaisquer actividades culturais em função da sua capacidade de gerar dinheiro, apesar de reconhecer que é necessário um apoio financeiro para produzir determinado tipo de materiais de suporte.
Todavia, o fundamental é, e será sempre, o papel desinteressado de quantos estão nesta área “de alma e coração”, porque a sua intervenção não depende de pressões económicas ou políticas... movem-se por “amor à camisola”, dispensam protagonismos elitistas e a sua recompensa é a adesão voluntária das pessoas à causa que defendem e o reconhecimento pelo trabalho realizado. A satisfação íntima, e uma palavra de agradecimento, são as únicas retribuições que consideram adequadas pelo cumprimento dos projectos em que acreditam. Uma forma altruísta de encarar a Cultura que nem todos compreendem...
ET

4 comentários:

Anónimo disse...

Tens toda a razão ET!Também me passa essa ideia de cultura e eu sei porque faço parte desse pequeno grupo que ainda acredita que a cultura não é um produto comercial mas é para aproximar as pessoas e serem iguais e com base nos mesmos direitos a poderem participar em certas actividades para seu enriquecimento cultural.Faço parte de duas associações e sei o quanto custa levar a cabo certas realizações culturais.
Ag

Anónimo disse...

Entendo, perfeitamente, o amor à camisola e essa ideia utópica de cultura. Porém, valorizo mais a ideia de uma cultura "marginal", ou seja, aquela que se afirma num meio hostil, colocando "pózinhos na engrenagem", do que aquela que, subsidiada e dependente se perfila nos primeiros lugares dos favores ministeriais.
Luta-se lá, onde a cultura parece impossível, mesmo que, supostamente se destine à criação de mais valia. Aí, no essencial, a cultura, apesar de provocar mais valias tem também, como mais valia a sua própria condição de ser cultura, mais valorizada porque aplicada num meio que lhe é hostil. Seja onde for que se proponha o projecto cultural. A cultura não é, portanto, objecto pertença de ninguem nem de lugares. A cultura é todo o lugar em que se pratique e afirme. JC

DP disse...

Para Agostinho: também eu pertenço a uma associação cultural (O FAROL – Associação de Cidadania de Cacilhas) e sei bem quais são as dificuldades que temos de ultrapassar para conseguir implementar as nossas realizações. Felizmente somos um grupo de cidadãos empenhados, persistentes e, sobretudo, gostamos imenso de fazer estas coisas... Assina: ET

DP disse...

Para Júlio César: a utopia que ilumina o meu horizonte, falando em termos culturais, é a muleta que encontrei para me guiar o caminho enquanto vou metendo uns “pózinhos na engrenagem” pois também eu valorizo e pratico uma ideia de cultura “marginal”... exemplo disso é o projecto cultural do Café com Letras, em Cacilhas, que eu criei em Fevereiro de 2003, o qual assenta na colaboração gratuita de todos os seus intervenientes (artistas e associações locais) e não tem qualquer apoio financeiro institucional. No entanto tem sobrevivido neste meio hostil, como muito bem dizes. E fazemos imensas coisas... basta ter empenho quanto baste, muita imaginação e uma grande capacidade de execução, nomeadamente no que concerne à produção de materiais de divulgação... temos um jornal trimestral, uma colecção de cadernos de poesia, etc., tudo editado artesanalmente. E concordo 100% quando afirmas que a cultura não é pertença de ninguém... afinal ela é de todos! Assina: ET